Diário![]() 16/03/2010 08h38
GUIMARÃES ROSA - Grande Sertão: Veredas - Trechos selecionados
1
Que mesmo, no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. 2 Vai, e vem, me intimou a um trato: que, enquanto a gente estivesse em ofício de bando, que nenhum de nós dois não botasse mão em nenhuma mulher... Jurei... Um dia, no não poder, ele soube, ele quase viu: eu tinha gozado hora de amores, com uma mocinha formosa e dianteira, morena cor de dôce-de-buriti. Diadorim soube o que soube... Diadorim não me acusava, mas padecia... Desabafei, disse a ele coisas pesadas. - "Não sou o nenhum, não sou frio, não... Tenho minha força de homem!" Gritei, disse, mesmo ofendendo. Ele saíu para longe de mim; desconfio quem, com mais, até ele chorasse. E era para eu ter pena? Homem não hora! - eu pensei, para formas. 3 Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou - os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam... Falei sonhando: - "Diadorim, você não tem, não terá alguma irmã, Diadorim?" - voz minha; eu perguntei... Sei lá se ele se riu?... Irmã nem irmão, ele não tinha: -"Só tenho Deus, Joca Ramiro... e você, Riobaldo..." Mas pude ter a língua sofreada. - "Vamos embora daqui, juntos, Diadorim? Vamos para longe, para o porto do de-Janeiro, para o sertão do baixío, para o Curralim, São-Gregório, ou para aquele lugar nos gerais, chamado Os-Porcos, onde seu tio morava..." O que eu tinha falado era umas doideiras. Diadorim esperou. Ele era irrevogável. Então, eu saí dali, querendo esquecer o ligeiro atual. Minha cara estava pegando fogo. 4 Mas, pensar na pessoa que se ama, é como querer ficar à beira d'água, esperando que o riacho, alguma hora, pousoso esbarre de correr. 5 Deixei meu corpo querer Diadorim; minha alma? Eu tinha recordação do cheiro dele. Mesmo no escuro, assim, eu tinha aquele fino das feições, que eu não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia. Diadorim - mesmo o bravo guerreiro - ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo, do rosto... Beleza - o que é? E o senhor me jure! Beleza, o formato do rosto de um: e que para outro pode ser decreto, é, para destino destinar... E eu tinha de gostar tramadamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ele fosse uma mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer - pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação - por detrás de tantos brios e armas? Mais em antes se matar, em luta, um o outro. E tudo impossível. Três-tantos impossível, que eu descuidei, e falei: - ...Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos... -; o disse, vagável num esquecimento, assim como estivesse pensando somente, modo se diz um verso. Diadorim se pôs pra trás, só assustado. - O senhor não fala sério! - ele rompeu e disse, se desprazendo. "O senhor"- que ele disse. Riu mamente. Arrepio como recaí em mim, furioso com meu patetear. - Não te ofendo, Mano. Sei que tu é corajoso... - eu disfarcei, afetando que tinha sido brinca de zombarias, recompondo o significado. Aí, e levantei, convidei para se andar. Eu queria airar um tanto. Diadorim me acompanhou. 6 Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer - mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.... Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: - "Meu amor!..." 7 Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... Publicado por Goulart Gomes em 16/03/2010 às 08h38
07/03/2010 09h47
CONSTATAÇÃO
O mundo está dividido em dois grupos de pessoas: As Que Fazem e As Que Criticam As Que Fazem. Seria isso a tal de dialética? Publicado por Goulart Gomes em 07/03/2010 às 09h47
![]() 02/03/2010 08h22
PARA NÃO ESQUECERMOS DAS DITADURAS
Relembrar é preciso.
Publicado por Goulart Gomes em 02/03/2010 às 08h22
![]() 28/02/2010 16h29
FRÁGIL MEMÓRIA
Enquanto trabalho em meu computador, meus filhos, na sala, assistem a uma homenagem de um programa televisivo ao grupo Mamonas Assassinas. Os jovens foram muito divertidos, é verdade, e marcaram uma geração. Mas fico a me lembrar de quantos compositores geniais da nossa MPB estão hoje quase completamente esquecidos porque nunca contaram com nenhum apelo mercadológico. Um grande exemplo é Humberto Teixeira, o grande parceiro de Luiz Gonzaga (ambos, na foto) em tantas músicas maravilhosas. A memória do nosso país é ainda mais curta quando os lucros das partes interessadas são pequenos. Para saber mais sobre Humberto Teixeira, clique aqui. Publicado por Goulart Gomes em 28/02/2010 às 16h29
![]() 24/02/2010 20h19
POETA BOI DE COICE E POETA BOI DE CAMBÃO
Trecho de entrevista de João Cabral de Melo Neto, publicada no Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Sales.
Marly de Oliveira pergunta: Uma coisa que impressiona é a sua memória e você ainda acha que ela não é mais a mesma. No entanto, tudo de que se lembra é com riqueza de detalhes. Por exemplo, houve um tio que lhe falou da diferença dos carros de boi de Pernambuco e do estado do Rio e você depois fez uma aproximação disse com a trajetória de alguns poetas. Como foi isso? JCMN: Quem me falou dessa diferença foi meu tio-avô Diogo Cabral de Melo, que era juiz e chegou a desembargador no estado do Rio. Eu já o conheci aposentado, morando em Santa Teresa, quando vim para o Rio. Um dia ele me disse: "Em Pernambuco os carros de bois são puxados por duas juntas de bois e no Rio são puxados por três juntas". Pensei então em escrever um poema que falasse de "boi de coice" e "boi de cambão". Os bois de cambão são os que puxam o carro, os de coice são os que o freiam, quando ele está descendo uma ladeira. Eu pensava num poema que fosse uma tipologia geral. Por exemplo, Manuel Bandeira é um boi de cambão, o Schimidt é um legítimo boi de coice. Sartre é um boi de cambão, o Camus é um boi de coice. Não há superioridade de um sobre o outro. É uma questão de tipologia. Auden era boi de cambão, Eliot era boi de coice... Carlos Drummond, no princípio, era boi de cambão, acabou como boi de coice. Murilo Mendes tem pedaços de boi de coice e pedaços de boi de cambão. Walt Whitman era boi de cambão. Jorge Guillén é boi de coice. Dylan Thomas faz o possível para ser boi de cambão e só consegue ser boi de coice. Rimbaud é um misto, talvez o mais completo, de boi de coice e boi de cambão. Mallarmé é boi de cambão. Baudelaire é boi de cambão. Théophile Gautier é boi de cambão. Mário de Andrade é boi de cambão. Augusto dos Anjos é boi de coice. Proust, boi de coice. Valéry, boi de cambão. Isso, como você vê, não é questão de valor, mas de approach da realidade. Inclassificável é o Shakespeare, capaz de escrever a comédia mais engraçada e a tragédia mais trágica. Publicado por Goulart Gomes em 24/02/2010 às 20h19
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