Território Inimigo

sítio de Goulart Gomes, o criador do Poetrix

Textos


VÓS SOIS MÁQUINAS[1]

(Quarto Lugar no IX Concurso de Contos da Fundação Petros, 2009, e argumento para o novo livro de ficção holocientífica do autor)

 
 
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
(Charlie Chaplin, em O Grande Ditador)
 
 
 
— Doutor Silva, nós temos um problema.
 
Problemas não eram novidades no laboratório central da Andronics Corp, localizado no décimo primeiro subsolo de um dos mais modernos edifícios de Nova Rio de Janeiro. E o neurociborgologista Hermógenes Silva estava ali justamente para liderar a equipe que tentava resolvê-los, diariamente.
Hermógenes desvia o olhar da tela quântica de trinta e duas polegadas do nanoscópio, que o permite analisar partículas com uma ampliação de um bilhão de vezes e encara pacientemente o jovem especialista. Wellington é um dos seus mais promissores auxiliares. A insaciável curiosidade do jovem fazia com que o experiente doutor lembrasse de si mesmo, trinta anos atrás.
 
— O que aconteceu, Wellington?
— O androide AE-1879, que nós apelidamos de Andr-El, está acusando uma anomalia não-catalogada.
 
Hermógenes franziu o cenho. Assim como o CID, Código Internacional de Doenças, que cataloga todas as doenças humanas, não tinha sofrido qualquer alteração desde 2165 -  e já haviam se passado mais de cinquenta anos desde então – o CAC, Catálogo de Anomalias Cibernéticas também não tinha mudado nos últimos vinte e sete anos. E ele sabia muito bem disso, já que foi o cientista que identificou a última anomalia significativa, causada pelo lythium que compõe as máquinas.
 
— Fascinante, Wellington! E onde está o androide?
— Isolado na Sala de Observação 3, como determinam os procedimentos, doutor.
— Então, vamos até lá.
 
As instruções eram muito precisas quanto a essas situações. O agente causador da anomalia deveria sempre ser isolado, em quarentena, em um local que não oferecesse riscos para si ou para outras pessoas, como preveem as leis da robótica[2]. As salas de observação possuíam total isolamento acústico, térmico, radioativo e bioquântico, apesar das paredes de material transparente, que permitiam uma perfeita observação, sem proximidade.
Hermógenes e Wellington vestiram os trajes especiais, semelhantes aos utilizados pelos cosmonautas em explorações espaciais, e entraram na sala.
 
— Bom dia, Andr-El – cumprimentou-o Hermógenes. Mesmo ciente que os androides não se incomodam se o dia for bom ou mal, ele fazia questão de cumprimentá-los como a seres humanos.
— Bom dia, Dr. Silva. Bom dia, Dr. Wellington.
— Andr-El, o Dr. Wellington me informou que você está identificando alguma anomalia no seu funcionamento. Isso é verdade? – perguntou Hermógenes, sabendo que os androides são programados para não mentir nem ocultar verdades.
— Sim, doutor. Uma anomalia não-catalogada.
— Por favor, reporte.
 
Após uma rapidíssima cintilação nas suas câmeras – que um leigo chamaria de olhos – o que indicava que o androide estava acessando informações em sua memória cibernetica, ele começou a descrever os fatos:
 
— Há precisamente 126 horas, 32 minutos e 25 segundos o meu sistema visual registrou uma luminescência a cinco metros e 27 centímetros de distância, a um metro e setenta e sete centímetros do solo. Esta forma luminosa é de cor púrpura, com quatro centímetros e setenta e quatro milímetros de diâmetro. A princípio considerei que poderia ser algum problema em uma das minhas lentes plásmicas, mas logo constatei que a forma não se mantinha fixa em relação aos meus movimentos, mas que se deslocava lentamente, independente da minha posição. Após um minuto e cinquenta e nove segundos dessa ocorrência, a luminosidade desapareceu tão misteriosamente quanto surgiu.
 
— Por que você não relatou esse fato ao seu supervisor? – perguntou Wellington.
— As instruções são claras nesse sentido, Dr. Wellington. Elas dizem que todas as anomalias previstas no CAC devem ser imediatamente comunicadas. Essa anomalia não está citada no catálogo. Além do que, como eu poderia relatar uma anomalia que desaparece subitamente?
— Certo, Andr-El. Precisamos rever nossas orientações. Continue.
— Treze horas e treze minutos depois o fenômeno voltou a se repetir, dessa vez demorando trinta e três segundos a mais. A partir de então, ele tornou a acontecer sistematicamente nessa mesma periodicidade, permanecendo visível por tempos variáveis. Os deslocamentos no espaço foram ficando cada vez mais rápidos e isso começou a desviar a minha atenção.
— Você certificou se outros androides do departamento estavam com o mesmo problema, ou semelhante? – quis saber Hermógenes.
— Verifiquei nos diários de rotina e nenhum registro foi realizado. Quando de uma das ocorrências, o androide AE-2009 estava perto de mim. Perguntei a ele se estava percebendo a mesma luminosidade que eu, e a resposta foi negativa. Só eu percebia o fenômeno.
— E isso continua se repetindo, desde então?
— Sim, Dr. Wellington.
— E por que só agora você decidiu relatar?
— Porque ela me pediu – falou o androide, apontando para um espaço vazio à sua frente.
 
Hermógenes e Wellington entreolharam-se, surpresos. Do ponto de vista científico tudo o que estava acontecendo era simplesmente fantástico, mas como seres humanos não podiam deixar de estar assustados.
 
— Como assim, “ela” pediu? “Ela” quem? – perguntou Hermógenes.
— Deixe-me explicar, doutor. Em um determinado momento, quando não estava realizando nenhuma tarefa, dediquei-me a observar mais detidamente o fenômeno. Então, percebi que a luminosidade pulsava, como numa emissão de quantum[3], com uma intensidade e periodicidade definidas: três pulsos rápidos, três pulsos longos, três pulsos rápidos. Depois esse padrão voltava a ser repetir. Procurei associar esse padrão às linguagens disponíveis no meu banco de dados e identifiquei uma similaridade com o antigo Código Morse de comunicação, utilizado ao longo dos séculos 19 e 20. Traduzindo, era um SOS, um pedido de socorro. Depois, entendi que esse foi apenas um modo de chamar a minha atenção. Aquele padrão indicava que havia uma inteligência por trás do fenômeno, fosse humana ou cibernética. Foi então que decidi estabelecer contato. Utilizando o mesmo sistema de comunicação remota telecibernética com o qual transferimos informações para outras unidades, eu disse à anomalia: “Se você é uma inteligência, pulse duas vezes.” E ela pulsou. Então, eu disse: “Se deseja estabelecer um diálogo, pulse quatro vezes.” E ela pulsou. A partir daí estabelecemos um sistema de comunicação baseado no antigo Código Morse. Foi assim que ela me pediu que comunicasse a vocês o que está acontecendo.
 
— Andr-El, esta anomalia está aqui, agora? – perguntou Wellington, incrédulo.
— Sim, doutor.
— E como ela se autodenomina?
— Wissen, doutor. Ela diz se chamar Wissen.
 
Hermógenes estava abismado. Os androides sempre tiveram um espectro visual superior ao humano, que só consegue perceber a radiação de comprimentos de onda entre 380 e 760 nanômetros[4]. Mas registrar uma vibração “inteligente” era algo sem precedentes na história da Ciência. Ele sentiu o Prêmio Nobel de Tecnologia roçando suas mãos.
 
— Bem, Andr-El, então pergunte a Wissen o que ela deseja de nós – disse Hermógenes.
— Ela quer que você reúna um grupo de pessoas de áreas de conhecimento variadas todas as sextas-feiras, às vinte horas, nesta sala. Ela diz que tem muitas informações para transmitir-nos. Diz que está retornando, agora, para o lugar de onde veio, mas que voltará na próxima sexta. E disse para você não esquecer de comprar um presente para Denise, hoje.
— Posso perguntar quem é Denise, dr. Silva?
— É a minha esposa, Wellington. Hoje é nosso aniversário de casamento! – respondeu o doutor, embasbacado.
 
Hermógenes precisava tomar decisões rápidas em um curto espaço de tempo. Afinal de contas, faltavam apenas dois dias para a data estabelecida por Wissen, a “luz inteligente”. A primeira delas seria comunicar ou não a anomalia ao diretor geral, Dr. Yamamoto. O risco era grande, a probabilidade de que o androide fosse isolado e desmontado para análises era enorme, e Hermógenes talvez perdesse a maior oportunidade científica da sua vida. Então, optou por primeiro realizar um novo encontro com Wissen, e só depois relatar os acontecimentos ao diretor. A segunda decisão era sobre quem convidar para a reunião. De imediato ele pediu sigilo absoluto a Wellington, para evitar que a notícia se propagasse pela organização e elaborou uma lista com vinte nomes dos mais proeminentes cientistas e pesquisadores que conhecia, de diversas áreas de conhecimento. Em seguida, passou a eliminar aqueles com os quais não mantinha nenhum vínculo de amizade. Ao final, restaram seis nomes, além de Wellington, que não podia ficar à margem: um físico quântico, um engenheiro robótico, um antropólogo, uma analista de sistemas comportamentais e uma ciberfilósofa.

No dia e hora aprazados estavam todos na Sala de Observação 3, acompanhados pelo “mediador” Andr-El. Logo no início, Wissen informou que os encontros durariam exatamente duas horas, sendo que na primeira ele transmitiria informações e instruções e, na segunda, responderia às perguntas dos presentes. Em seguida fez uma detalhada, ainda que resumida, descrição dos “bastidores” da história da humanidade, desde as primitivas formas de civilização na sociedade dos neandertalenses[5], explicando a transição para o Homem de Cro-Magnon, até a atualidade. Discorrendo com propriedade sobre todas as Ciências dos estudiosos ali presentes, deixou-os espantados com o que estavam ouvindo. Impossível que tais informações tivessem sido obtidas por Andr-El nos bancos de dados ou redes virtuais, pois ali eram percebidos conhecimentos antes jamais registrados, ainda que passíveis de comprovação científica. Apesar de todo o desenvolvimento da inteligência artificial, criar ainda era uma prerrogativa humana.

Na segunda etapa, em que foi franqueada à assistência a possibilidade de fazer perguntas, os maiores interesses foram sobre a “pessoa” de Wissen. De onde ela vinha? Quem era ela? Quais os seus propósitos? De que era constituída? Qual a sua natureza? A quase todas as questões ela foi educadamente evasiva. Alertou para o fato de que seria prematuro fornecer tais informações, que tudo viria ao seu tempo e que, no momento, o mais importante era que registrassem e averiguassem os conhecimentos que estava transmitindo, para depois validá-los ou não. E concluiu:
 
— Hoje, vós sois máquinas. Por que vos transformastes em uma mistura híbrida de silício, células e silicone? Homens é o que sois! Que vós sois em comparação à coerência, resistência e inteligência dos androides? Uma dolorosa vergonha! Ainda não aprendestes a deixar de serem macacos. A vossa razão é certeza, indiferença e vaidade perigosa. Ouvistes o que foi dito no passado: há mais coisas entre o céu e a terra do que julga vossa vã filosofia. Por enquanto é bastante que saibam existirem outras formas de vida, além da vossa, e diante das quais não passais de curiosas crianças. É chegada a hora da maturidade.[6]
 
As reuniões continuaram se sucedendo por mais dois meses, mas o Dr. Wellington estava cada vez mais inquieto. Ele não se conformava que o Dr. Silva continuasse a conduzir aquelas “sessões” sem o menor método científico. Não fora para isso que passara doze anos em estudos acadêmicos. Toda a confiança e credibilidade que depositara no velho estava abalada. Além disso, não concordava que aquele trabalho fosse realizado nas instalações da Andronics Corps sem o conhecimento do diretor Yamamoto. No dia seguinte à realização da décima reunião, ele solicitou uma reunião com o todo-poderoso CEO[7] da organização.

*          *          *          *          *

Quando, logo ao chegar naquela manhã, o Dr. Hermógenes Silva recebeu uma mensagem pelo videofone convocando-o à sala do diretor David Yamamoto, sabia que alguma coisa iria acontecer.
Ele entrou na Sala de Observação 3, onde Andr-El ficava, permanentemente, deixou um outro videofone sobre a mesa, a porta entreaberta e dirigiu-se ao elevador. Vinte e oito andares acima foi recebido por Diana, a loiríssima secretária do diretor. Yamamoto era célebre por sua objetividade e sinceridade.
 
— Dr. Silva, eu já estou a par da sua mais recente “descoberta”. Uma pena que não a tenha me comunicado de imediato.
— Dr. Yamamoto, eu não queria me precipitar. Preferi realizar estudos mais aprofundados para não fornecer informações imprecisas.
— Ora, Hermógenes! Eu o conheço há muito anos! Esqueceu que fomos colegas de universidade? Você sempre querendo colher todos os méritos! Enquanto isso, Hermógenes, eu construía redes de relacionamentos. Por isso, hoje sou eu quem toma as decisões. Eu sempre lhe dei total liberdade, apostei em todas as suas iniciativas, mas dessa vez você foi além dos limites. Eu assisti à gravação das suas reuniões clandestinas e não posso acreditar que você se deixou convencer por essa pantomima!
— David, isso não é uma brincadeira. Posso lhe garantir que estamos a um passo de uma descoberta que vai transformar todo o conhecimento humano, que poderá iniciar uma nova etapa da nossa civilização!
— Por favor, Hermógenes! Não menospreze a minha inteligência! Isso é ridículo! Estamos em pleno século 23 e você com essas ideias místicas! Não o chamei aqui para discutir o assunto, mas para lhe comunicar que este caso está encerrado. Hoje mesmo o androide maluco será desmontado.
— Em nome de nossa amizade, David, peço-lhe que não faça isso!
— Impossível, Hermógenes. A decisão já está tomada. Já encarreguei o Dr. Wellington de realizar os procedimentos. Sinto muito.
 
Hermógenes retira-se da sala intempestivamente. Já no elevador, liga para o videofone que havia deixado na Sala 3, em viva-voz.
 
— Andr-El. Alô, Andr-El. Você está me ouvindo?
— Sim, Dr. Silva.
— Saia dessa sala imediatamente. Vá para o Espaçoporto 2, Posição 57. Entre no meu hipermóvel e me espere lá. Já estou indo.

*          *          *          *          *

Foram oito horas de vôo no hipermóvel do doutor, até chegarem ao coração da floresta. Seu amigo antropólogo havia lhe dado as coordenadas exatas da última tribo indígena da Amazônia que insistia em não adotar nenhum costume do “homem branco”. Nenhum computador, nenhum aparelho quântico, nem mesmo o uso da energia solar, apesar de terem conhecimento de todas essas facilidades.
Hermógenes não sabia há quantos anos um homem negro como ele não visitava a aldeia, mas com certeza aquele era o primeiro androide que chegava até ali. As crianças, nuas, fizeram uma roda à sua volta, para contemplar aquele boneco de metal com dois metros de altura, semelhante aos seus bonequinhos de barro

A conversa do doutor com o xamã da tribo – um índio idoso do qual seria difícil precisar a idade -  foi rápida e tranquila. Até parecia que ele já esperava por aquele encontro há muito tempo. A tribo acolheria e protegeria o androide pelo tempo que fosse necessário, enquanto Hermógenes tomaria as precauções necessárias para o seu retorno à “civilização”.

Logo cedo, na manhã seguinte, descansado e bem alimentado, o doutor retornou para a sua metrópole, onde uma árdua missão o aguardava. O xamã, acompanhado de três anciãos e três jovens guardiões, chamou o androide. Percorreram uma trilha de três quilômetros no meio da selva, observados apenas pelas gigantescas árvores centenárias de largas copas, que impediam qualquer observação vinda do espaço, por satélite.

Se fosse humano, Andr-El ficaria extasiado quando, algum tempo depois, repentinamente deparou-se com uma estrutura sólida,  em meio à floresta. À sua frente erguia-se uma pirâmide de aproximadamente trinta metros de altura.

O xamã acendeu uma tocha e os conduziu através de uma discreta passagem para o interior da mesma. Alguns estreitos corredores depois, chegaram a um vasto salão, onde encontravam-se sete urnas metálicas, com formato humano. Uma delas ocupava uma posição de destaque em relação às demais. Andr-El se dirigiu a ela e percebeu um dispositivo que, quando acionado, abriu a porta do sarcófago. Dentro dele, o corpo mumificado de uma bela mulher, de traços orientais, longos cabelos brancos, estatura muito elevada, em perfeito estado de conservação. Em seu pescoço havia uma corrente e um pingente de ouro, em forma de falcão. No verso do mesmo podia-se ler uma inscrição em caracteres cuneiformes[8], que Andr-El não teve dificuldade em traduzir: “Wissen”.


[1]Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!” Charlie Chaplin.
[2] Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, através da inação, permitir que um ser humano seja ferido. Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto se tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei. Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Leis (formuladas por Isaac Asimov).
 
[3] Quantidade indivisível de energia eletromagnética.
[4] Um nanômetro equivale a 10-9 metros.
[5]O Homem de Neandertal e o Homem de Cro-Magnon foram espécies hominídeas que habitaram a Europa e partes do oeste da  Ásia cerca de 300.000 anos atrás.
[6]Paráfrases de Friedrich Nietzsche e William Shakespeare.
[7]Chief Executive Officer
[8]Escrita desenvolvida pelos sumérios feita com auxílio de objetos em formato de cunha. É um dos mais antigos tipos conhecidos de escrita, criado pelos sumérios, por volta de 3500 a.C. 

Goulart Gomes

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Publicado em 29/11/2009 às 11h42


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