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EU TAMBÉM SOU SPOCK
Começo a ler o livro EU SOU SPOCK, escrito pelo ator Leonard Nimoy, e me impressiono com duas declarações suas, feitas logo nos primeiros capítulos: uma sobre a relação do ator com o seu personagem e outra sobre o “propósito” de ambos. Desde criança sou admirador de Spock. Na década de 70 assisti a inúmeros episódios da série Jornada nas Estrelas, com o capitão Kirk, o doutor McCoy, o vulcano Spock e todos os demais integrantes da tripulação da nave Enterprise, audaciosamente indo aonde ninguém jamais fora. E é certo que, de alguma forma, isso me influenciou, como tudo o que vivenciamos na nossa infância. Meu filho chama-se Leonardo em homenagem a três homens que admiro: Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios de todos os tempos; Hypolite Leon, nome de batismo de Allan Kardec e Leonard Nimoy. Na última sexta-feira, fui trabalhar com a minha camisa do uniforme de Star Trek, para a diversão dos colegas. No sábado assisti vários episódios da série Nova Geração, com o comandante Pickard e o incrível androide Data, que quase preencheu a lacuna deixada por Spock. E hoje, domingo, comecei a leitura do livro citado. Ao assistir os extras (making off) do recém-lançado filme JORNADA NAS ESTRELAS, décimo primeiro episódio da série e primeiro a ganhar um Oscar, não pude deixar de me emocionar ao ver todas as homenagens recebidas por Leonard Nimoy. Realmente, ele é uma lenda viva do cinema de ficção científica, assunto pelo qual eu sou apaixonado. Mas, voltando ao livro, a primeira reflexão do autor, em um diálogo fictício com o seu personagem, é se um teria existido se não fosse o outro, e vice-versa. Isso porque, em um número incontável de vezes, Leonard foi cumprimentado e apontado nas suas aparições em locais públicos como Spock. Criador e criatura se confundem. Mas, seria diferente conosco, simples mortais? Não estamos o tempo todo “representando”, assumindo “personas” nas nossas relações diárias, no trabalho, na família, no convívio social? Quem somos, realmente? Essa é a grande pergunta, que tentamos desvendar com a provocação socrática: Conhece-te! Então, eu volto à minha antiga reflexão sobre o Sonhar – elemento maravilhosamente representado por Neil Gaiman, na série Sandman. Conseguimos ficar mais tempo sem comer ou beber do que sem dormir. A minha louca teoria é que, para a nossa existência, sonhar é mais importante que alimentos ou bebida. O nosso “hardware”, não suporta o mal-estar freudiano da existência sem a possibilidade de sonhar, estejamos acordados ou dormindo. Daí a máxima importância da Arte para a Humanidade. É ela quem nos permite sonhar, sempre. Por isso, eu também sou Spock. E você, quem é? Batman, Super-Homem, Hellboy, Mulher Maravilha, Mulher Gato, Simpson, Homem-Aranha, Capitão Nascimento, Drácula, Wolverine? Quem está no seu alterego? Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo e o quanto isso se reflete no seu dia-a-dia? A nossa mente adora brincar e, de tal forma, que por vezes muitas pessoas se confundem com os próprios personagens que criam. Esse é o Lado Negro da Força: trocar de lugar com a criatura, ao invés de vivenciar os aspectos positivos e criativos que ela pode nos proporcionar. A segunda informação que Leonard Spock nos dá é que, um certo dia, uma jovem o encontrou e disse, literalmente: “o ‘propósito’ de Spock era preparar a humanidade de forma positiva para um contato real com a vida alienígena”. Ele ainda afirma que recebeu inúmeras cartas com a mesma mensagem. Ora, a nossa galáxia conta com alguns bilhões de estrelas, com um sem número de planetas girando ao seu redor. E existem bilhões de galáxias no Universo. Acredito que seria muita presunção nossa acreditar que apenas nosso planeta seja habitado. E se não estamos sozinhos no Universo, também acredito na possibilidade de encontrarmos nossos vizinhos, algum dia. O Cinema tem realizado um papel fundamental no que diz respeito a abordagens de temas filosóficos e espiritualistas. Talvez até maior que a própria Literatura. “Propósito existencial” é um tema muito bem discutido, por exemplo, na série Matrix, principalmente nos diálogos com Merovíngeo (ver meu ensaio Matrix Revelations). Acredito que todos nós, vivendo neste planeta azul, temos uma missão. Micromissões, mas que influenciam as missões pequenas, que influenciam as médias, as grandes, e assim sucessivamente. Por exemplo, se José não tivesse aceitado a misteriosa gravidez de Maria, segundo a versão bíblica, e a tivesse rejeitado, que seria da missão crística? Teria o mesmo êxito? Se Buda não tivesse encontrado o doente, o velho, o morto, teria estabelecido a sua doutrina? Se Einstein não tivesse nascido judeu, os nazistas teriam desenvolvido a bomba atômica primeiro, e então... Spock foi o primeiro alienígena simpático, ao contrário dos monstros disformes que queriam destruir a Terra, imagem muito comum à época. É possível, sim, que ele tenha começado a nos preparar para um encontro intergalático, no futuro, a nos acostumarmos com a ideia que o ET não é tão feio como pintam. Sob esse ponto de vista, este teria sido o nobre “propósito”, a “missão” de Leonard nessa encarnação. Pode parecer tolo e superficial, mas a cada instante estão acontecendo coisas aparentemente tolas e superficiais, que irão transformar a nossa vida ou a vida daqueles que virão depois de nós, neste mundinho chamado Terra. Coisas como eu estar colocando o ponto final neste texto, neste exato momento, e você estar terminando de lê-lo. Vida longa e próspera! Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 11/04/2010
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