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O DIA EM QUE MORREU PAPAI NOEL
O dia em que morreu Papai Noel


O presidente da república perpetua-se democraticamente no poder já faz oito anos. Sustentado por um discurso ao mesmo tempo intelectual e falso-populista, apoiado pelas oligarquias reinantes - latifundiários, banqueiros e pelo capital apátrida - declara fazer tudo pelo social, conquanto o povo sinta na pele não ser isso exatamente verdadeiro. Os pobres continuam pobres (o que para muitos deles é considerada uma vantagem), os ricos ainda mais ricos (o que para todos eles é uma vantagem) e a classe média, sucumbida sob centenas de contas pelas quais não deveria pagar - saúde, segurança, educação, cultura, saneamento - refugia-se no prazer de comprar um carro novo, ainda que usado, e passar cinco dias dançando ou dormindo durante o Carnaval.
Cai a inflação, sobe o desemprego. Você está parado na calçada, em frente à porta giratória, eletrônica, anti-furto, blindada e guarnecida por um vigilante. Retira do bolso sua penca de chaves e o celular (pré-pago), último resquício das suas incursões pelo mundo do consumo. Coloca-os no local indicado, passa pela porta sob o olhar atento de Cérbero. Sempre o mesmo inferno, nunca o mesmo guardião.
A moça sorridente da recepção, tão artificial quanto seu perfume, indica-lhe onde sentar. Seis anos como cliente. Na agência, cada vez um maior número de  máquinas e menor de seres humanos. O sorridente gerente de farto ventre, costeletas grisalhas, bochechas rosadas e gravata cafona está atendendo outra pessoa. Parece contente, talvez pela abertura de uma nova conta. Quem sabe de alguma nova empresa, que não sobreviverá cinco anos. A pequena árvore de Natal pisca intermitente e aquela musiquinha chata não pára (bim-bim-bim, bim-bim-bim). No caixa, um magro velho recebe sua magra aposentadoria, após redigitar a senha cinco vezes. "Esqueci os óculos". Lá fora, na rua, as pessoas caminham apressadas. O relógio, na parede, lembrando um personagem de conto de Haroldo Barboza, tudo observa, nada revela, tiquetaqueando cada vez mais lentamente. O tempo não passa.
Você relembra os seu tempos passado como bancário: lançar o livro Razão, conferir o Diário, ordenar os cheques para a compensação. Tudo distante, tudo hoje por conta do computador, aumentando a legião dos "inempregáveis". Você mesmo, um deles. A conversa do gerente se estende, mas para você a espera não é problema, mas sim a dúvida. Nada mais lhe resta a fazer hoje, já levou e apanhou os meninos no colégio, já folheou os clalssificados do jornal em busca de alguma oportunidade. As agências bancárias, à tarde, são geralmente mais tranqüilas.
Finalmente, a sua vez. Você conta a sua história: está desempregado, endividado, precisa de dinheiro. O gerente, que era sorridente, agora tem uma fisionomia séria, compenetrada. Ouve-lhe com frieza, quase com indiferença. Interrompe o seu relato duas ou três vezes, para atender ao telefone. Você tenta controlar a ansiedade. Final de ano, as despesas aumentam. Precisa de algum dinheiro até conseguir um novo emprego, ainda que temporário. Enquanto fala, o gerente consulta, no computador, todos os seus dados. 41 anos de idade, casado, dois filhos. Uso habitual do cheque especial, nenhuma aplicação, nunca fez poupança, nem seguros. O gerente esboça um sorriso, suas bochechas ficam ainda mais rosadas: descobre que você é quase um conterrâneo, nascera na cidade vizinha à dele. Mas, infelizmente, não pode ajudar-lhe, a carteira de empréstimos está fechada. Enfiado naquela camisa vermelha, ele parece mais um tomate amassado, só agora você observa. Deseja-lhe boa sorte, esses momentos difíceis acontecem na vida de todos, com certeza você irá superá-lo, ele próprio já passara por isso. Sente muito.
Você sente mais que ele. Sente raiva, sente desespero, sente o peso dos anos sobre os ombros. Volta para casa a pé, para refletir, para economizar. Nesses dias, até mendigo pede esmola em gorro com bolinha de algodão na ponta. Há algo diferente no ar, é fácil perceber. Solidariedade, euforia, compaixão, hipocrisia, sabe-se lá! O certo é que as pessoas entram e saem freneticamente das lojas, dos chópingues, das Mecas do consumo. Enormes pacotes, pequenas lembrancinhas. Décimo terceiro salário, gratificações de Natal, cheques pré-datados, cartões de crédito, carnês.
Você sorri, histérico e irônico. Este ano ninguém da sua família vai ganhar presentes. Nada de peru, queijos, nozes, vinho, champanhe. Você não vai, ridiculamente, fazer sua listinha nem trocar abraços. Nenhum "amigo secreto".
A caminhada lhe exaspera, você já não suporta tantos jingle-bells e noites-felizes.Tantos falsos velhinhos sorridentes de barbas brancas e roupas de inverno no calor tropical, intercalando cada frase com um ho-ho-ho! Um deles está jogado na calçada, machucado, atropelado por um alucinado motobói.
Você chega em casa suado, cansado, desiludido. Desaba no sofá. A mulher, certamente, na casa da mãe, pedindo alguma ajuda. Seu filho mais novo aproxima-se, como quem nadatudo quer.

— Paizinho, será que Papai Noel vai trazer minha bicicleta?

A doce inocência da criança não a faz imaginar as dificuldades, os desafios, os riscos que a vida lhe reserva. Desempregado, não há nada a fazer, nem mesmo correr o risco de comprar a crédito. Se, ao menos, o gerente de gordas bochechas rosadas tivesse lhe dado o empréstimo! Você sente um ódio imenso por toda essa construção coletiva, esse rito social, essa obrigação voluntária de dar presentes. Imagina todos os colegas de seu filho com seus presentes, trazidos por Papai Noel. Só ele seria o discriminado, só ele, que foi um bom menino o ano inteiro e tirou boas notas na escola,  seria esquecido, menosprezado. Você sente um profundo ódio por tudo: pelo presidente, pelo gerente, por todos os papais-noéis e motobóis, pelo Natal - data em que se deveria estar comemorando o aniversário de um dos mais humildes homens. Você sente raiva até do papa, e de seu sacrifício inútil.

— Filho, Papai Noel não existe! – você fala, com ternura, para disfarçar sua ira.

A fisionomia do seu filho se transtorna. Os olhos perdem o brilho como se, de repente, dentro deles, uma luz se apagasse. Ele não consegue articular uma só palavra. Do canto do olho, escorre uma lágrima.

Você sente no peito uma dor profunda, quem sabe até um certo arrependimento, mas o frio sabor da vingança lhe consola. Na sua casa, sem lareira, nunca mais aquele gorducho idiota poria as botas.
Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 11/11/2006
Alterado em 24/08/2011
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