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O QUE LI DE MELHOR EM 2011
Hesitei bastante, se deveria escrever a minha já tradicional resenha sobre os melhores livros que li, ao longo do ano, ou não. Em 2011 foram poucos os livros de literatura universal e brasileira que li. Não pude dedicar tempo à continuada leitura dos clássicos, prática que mantenho há alguns anos, voltando-me mais para a leitura de ensaios e pesquisas que contribuíram para a conclusão do meu novo livro, VÓS SOIS MÁQUINAS, ficção científica, ainda inédito. Além disso, a premiação no Concurso de Contos Josué Guimarães, na Jornada Literária da Universidade de Passo Fundo (RS), que me levou ao intercâmbio cultural realizado na Universidade de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha e o lançamento da coletânea 501 POETRIX PARA LER ANTES DO AMANHECER, na Bienal do Livro da Bahia e no Clube Literário do Porto, em Portugal, preencheram suficientemente meu pouco tempo destinado ao exercício de ser um escritor amador e um leitor profissional. Porém, como historicamente dezenas de pessoas leem estas minhas resenhas, ano após ano, acredito que as mesmas venham sendo úteis para os apaixonados por livros, como eu. Começarei com um elogio à obra MULHERES DO PLANETA, de Titouan Lamazou, publicada sob patrocínio da UNESCO. Na obra, o artista realiza entrevistas com mulheres de inúmeros países, desde celebridades até as pessoas mais simples. Um excelente retrato da condição feminina, principalmente em países da África e da Ásia, aonde elas ainda sofrem grandes discriminações e abusos morais e sexuais. O ÚLTIMO VÔO DO FLAMINGO, do escritor moçambicano Mia Couto foi outra grata surpresa. Ainda não havia lido nada deste autor, professamente inspirado nas obras dos brasileiros Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Várias questões podem ser analisadas em torno da obra e do autor mas, sobretudo, ressalta a questão do rompimento com o colonialismo português, a busca de uma nova identidade nacional (que provoca a aproximação do autor com o Brasil, uma outra ex-colônia), a guerra civil e as condições adversas do continente africano. Isto tudo com muito bom humor, criatividade e apuro no trato com a linguagem. Mas a grandissíssima surpresa ficou mesmo por conta de O MARGINAL CLORINDO GATO, de Carlos Drummond de Andrade. Todos sabem que Drummond nunca foi meu poeta de cabeceira, mas nesse livro, uma edição quase apócrifa, ele se superou. A estrutura do longo poema lembra muito a poesia de João Cabral (meu ídolo), e a temática é diferente de tudo o que li deste autor anteriormente: a história de um marginal urbano, assassinado, que acaba por se tornar um mártir popular. Meu amigo Alberto Freire (drummonzista juramentado e sacramentado) também ficou surpreso com a obra. Hoje o livro só pode ser encontrado em sebos, mas vale a pena investir um pouco e conhecer um Drummond bem diferente (e melhor!) do qual estamos acostumados. Concluí a leitura (sempre adiada) do romance de ficção científica ANDROIDES NÃO CHORAM, do brasileiro Mauro Judice. Apesar do caráter claramente espiritualista, o que em alguns momentos entra em conflito com a temática futurista, é um dos melhores livros que li nos últimos tempos e, sem dúvida, dos melhores do gênero, no Brasil. Em um Brasil do futuro, a humanidade foi exterminada e androides lutam pela preservação da filosofia cristã. Também este ano, descobri o jornalismo literário em quadrinhos, estilo até então por mim ignorado, mesmo trabalhando na área de Comunicação, através das obras de Joe Sacco, de quem li PALESTINA. Uma forma que enriquece muito a reportagem, principalmente de denúncia, aliando jornalismo, literatura e desenho artístico. As histórias do povo palestino, retratadas por Joe Sacco, são emocionantes. Duas releituras foram obrigatórias: as coletâneas CADERNO INTERNACIONAL DE POETRIX e 501 POETRIX PARA LER ANTES DO AMANHECER, organizadas por mim para o Movimento Internacional Poetrix (www.movimentopoetrix.com). A primeira havia sido publicada originalmente em 2001, apenas em e-book. A segunda reune o melhor da produção de 84 autores, do Brasil e de Portugal, coligida ao longo destes 11 anos de criação do Poetrix. Dentre os gibis, um destaque para a HQ LOKI, de Robert Rodi e Esad Ribic. A história de um grande conflito entre os deuses nórdicos de Asgaard, só que, desta vez, contada por Loki, que é sempre o vilão, o derrotado. A trama, em verdade, é uma abordagem acerca do Destino de cada um de nós e da impossibilidade de modificação dos arquétipos, no sentido junguiano do termo. Excelente! Como fã de vinis, adorei THE ART OF THE LP – CLASSIC ALBUM COVERS – 1955-1995, de Johnny Morgan e Ben Wardle. Além de apresentar as capas e comentários dos principais álbuns destas décadas, a obra faz uma comparação histórica e contextual de várias delas. Muito legal conhecer capas como a Rock Around The Clock, de Bill Halley and His Comets; ABC, do Jackson Five, com Michael ainda criança; o álbum de Astrud Gilberto comparado com o de Sandie Shaw; a histórica capa do álbum em formato de isqueiro Catch a Fire, de Bob Marley and The Wailers; a inesquecível capa com o bebê do Nirvana, em Nevermind e a polêmica capa de MCMLXXXIV, de Van Halen. MULHERES NA GUERRA: 1939-1945 é um belo documento histórico sobre a participação feminina da Segunda Guerra Mundial. Histórias impressionantes, como a de Magda Goebbels, mulher do líder nazista, que teve a oportunidade de salvar seus seis filhos, ao final da guerra, mas preferiu envenená-los. Hanna Reitsch, a aviadora alemã, que anos depois visitaria o Brasil, foi quem se ofereceu para retirá-los da Alemanha. Outro grande nome foi o de Zoia Kosmodemianskaia, mártir russa que se tornou heroína nacional, após ter sido torturada e assassinada pelos nazistas. O livro QUANDO O ESCRITOR SE ENTREVISTA, de Marie Garance, me deu uma excelente ideia: publicar, em meu site, uma autoentrevista, com perguntas que eu sempre quis responder e nunca me fizeram. Está sendo uma experiência muito interessante, mesmo com minha baixa assiduidade! O livro EU SOU SPOCK tem uma resenha exclusiva, publicada em meu site, com o título EU TAMBÉM SOU SPOCK. Os primeiros capítulos do livro foram os que mais me impressionaram, em que Leonard Nimoy conta o início da sua trajetória como ator e os primeiros momentos da Série Clássica de Jornada nas Estrelas, até o seu encerramento. Foi uma série curta, com apenas três temporadas, mas que entrou para a história da TV e, posteriormente, do cinema, por seus personagens intensos, histórias encantadoras escritas por grandes roteiristas e escritores de ficção científica, pelo seu pan-universalismo e antecipação a várias descobertas científicas, como as portas com fotossensores, o telefone celular, armas laser, o tradutor automático de idiomas e o teletransporte. Spock é um dos mais fascinantes personagens de todos os tempos. A PEDRA E O RIO, de Lauro Escorel, é um dos melhores ensaios sobre a obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (preciso repetir que é meu ídolo?). O autor teve o privilégio de trabalhar lado a lado com o grande poeta, em uma das várias embaixadas e consulados onde ele serviu. Escorel ainda tomou por embasamento teórico as teorias junguianas, aprofundando-se nos aspectos psicológicos da obra cabralina. ENCONTRO COM RAMA é um dos grandes clássicos de ficção científica de Arthur C. Clarke. Uma gigantesca nave espacial, quase um planeta, de formato cilíndrico e com um oceano girando em sua área interior, torna-se um enigma assustador para os habitantes do planeta Terra. É incrível como até hoje os estúdios de Hollywood não se interessaram em levá-lo para as telonas. É dito que até Morgan Freeman já se interessou em produzi-lo, mas sem êxito. Vamos aguardar. Enquanto isto, é possível ver algumas produções com base na história no Youtube. Também para obter subsídios para meu novo livro li A ERA DAS MÁQUINAS ESPIRITUAIS, de Ray Kurzweil. Escritor polêmico, elogiado por muitos, criticado por outros, ele consegue nos levar em uma viagem cibernética através dos tempos, extrapolando a ficção (ou a ciência) para milhares de anos por vir. O livro foi originalmente publicado em 1999. Algumas de suas previsões para o século XXI ainda não se confirmaram, outras já se mostram superadas, mas a sua visão de futuro da humanidade e sua interrelação com as máquinas é impressionante e assustadora. Não há nada de novo que possa ser dito sobre a obra TRABALHADORES, do fotógrafo Sebastião Salgado. Só nos resta apreciar as fantásticas imagens e refletir sobre a condição do proletariado, em várias regiões do mundo, explorada ao extremo para dar continuidade à riqueza de uma minoria, neste regime de expropriação chamado capitalismo. O doutor Irvin Yalom voltou a me impressionar, este ano, com o livro DE FRENTE PARA O SOL, em que ele aborda a Morte. Mas não de uma forma fatídica ou tenebrosa, mas como um fato natural, que faz parte das nossas vidas, pelo qual todos teremos que passar. Ele demonstra, também, como as mortes de outras pessoas por vezes nos abalam mais profundamente do que imaginamos, deixando profundas cicatrizes em nosso inconsciente, alterando a nossa relação com a vida. Ponto negativo apenas para a sua visão niilista da existência, bastante cética. Para encerrar, a leitura do HEROI DE MIL FACES, de Joseph Campbell, foi um aprofundamento à leitura do livro A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, realizada no ano passado. É sempre delicioso compartilhar com o vasto conhecimento mitosófico e antropológico de Campbell, nesta obra levando-nos a um aprofundamento sobre esta jornada psiquíca que todos realizamos ao longo de nossas vidas, a Jornada do Heroi. Uma obra fundamental a todo processo de autoconhecimento. Um Feliz 2012 a todos, com novas e maravilhosas leituras. Leia, também: O QUE LI DE MELHOR NA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 30/12/2011
Alterado em 30/12/2011
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